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05
FEB
Professora indiana que criou centenas de centros de aprendizagem ganha prêmio global de US$ 1 milhão
Professora indiana Rouble Nagi recebe o troféu do Prêmio Global de Professores do príncipe herdeiro de Dubai, Sheikh Hamdan bin Mohammed Al Maktoum. AP/Altaf Qadri Uma professora e ativista indiana que criou centenas de centros de aprendizagem e pintou murais educativos em favelas ganhou nesta quinta-feira (5) o Global Teacher Prize, prêmio internacional no valor de US$ 1 milhão, conhecido como o "Nobel da Educação". Rouble Nagi recebeu a premiação durante a Cúpula Mundial de Governos, realizada em Dubai, evento anual que reúne líderes de vários países. A Fundação de Arte Rouble Nagi já criou mais de 800 centros de aprendizagem em toda a Índia. Os espaços atendem crianças que nunca frequentaram a escola, oferecendo ensino estruturado, e também apoiam alunos que já estão matriculados. Nagi também pinta murais educativos com conteúdos de alfabetização, ciências, matemática e história, entre outros temas. Ao receber o prêmio, Rouble afirmou que a conquista é uma honra para ela e para a Índia. Ela contou que começou o trabalho há 24 anos, com 30 crianças em uma pequena oficina, e que hoje já alcançou mais de 1 milhão de crianças. LEIA TAMBÉM: Professora de SP é eleita a educadora mais influente do mundo por fundação que criou prêmio conhecido como o 'Nobel da Educação' Veja os vídeos que estão em alta no g1 “Acho que cada passo só me motivou e inspirou a levar todas as crianças da Índia para a escola”, disse. “Quando eu era criança, era meu sonho ver todas as crianças na escola. Crescer realizando isso para o maior número possível de crianças é uma experiência muito humilde.” O prêmio é concedido pela Fundação Varkey. Seu fundador, Sunny Varkey, também criou a GEMS Education, empresa privada com fins lucrativos que administra dezenas de escolas no Egito, no Catar e nos Emirados Árabes Unidos. “Rouble Nagi representa o melhor do que o ensino pode ser — coragem, criatividade, compaixão e uma crença inabalável no potencial de cada criança”, afirmou Varkey em comunicado publicado no site do prêmio. “Ao levar educação às comunidades mais marginalizadas, ela não apenas mudou vidas individuais, mas fortaleceu famílias e comunidades.” Nagi disse que pretende usar o valor de US$ 1 milhão para construir um instituto que ofereça formação profissional gratuita. A diretora-geral adjunta da UNESCO para Educação, Stefania Giannini, afirmou que o prêmio de Nagi “nos lembra de uma verdade simples: os professores importam”. Em declaração publicada no site da premiação, Giannini disse que a UNESCO tem a honra de participar da celebração de professores “que, com paciência, determinação e confiança em cada aluno, ajudam crianças a irem para a escola — um ato capaz de mudar o rumo de uma vida”. Nagi é a 10ª professora a receber o prêmio, criado em 2015. Entre os vencedores anteriores estão um professor do Quênia que doava grande parte do salário aos pobres, uma professora palestina que ensina seus alunos sobre não violência e um educador canadense que lecionou para estudantes inuítes em uma vila remota do Ártico. O vencedor do ano passado foi o educador saudita Mansour al-Mansour, conhecido pelo trabalho com pessoas pobres no país. A GEMS Education (Global Education Management Systems) é uma das maiores operadoras de escolas privadas do mundo e é avaliada em bilhões de dólares. O crescimento da empresa acompanhou o de Dubai, onde apenas escolas privadas atendem os filhos dos estrangeiros que movimentam a economia local.
05
FEB
'É a celebração de toda uma trajetória pela educação pública', diz professora de SP eleita educadora mais influente do mundo
Professora de SP é eleita a educadora mais influente do mundo "O prêmio é a celebração de toda uma trajetória pela educação pública." A afirmação é da professora de São Paulo Débora Garofalo, que foi reconhecida como a educadora mais influente do mundo pela Varkey Foundation, fundação internacional que criou o tradicional Global Teacher Prize, principal prêmio para professores do mundo, considerado o "Nobel da Educação". Em entrevista ao g1, ela afirmou que o prêmio mostra o quanto é importante os governantes invistirem na educação e que o desejo dela é de que os professores possam ter melhores condições. Em 2019, Débora se tornou a primeira brasileira e a primeira sul-americana a ser finalista no Global Teacher Prize, após idealizar um projeto de robótica na Escola Municipal Ary Parreiras, na capital paulista (veja mais abaixo). Segundo a fundação, a professora brasileira se tornou a primeira pessoa a receber o prêmio de educador mais influente, lançado neste ano para reconhecer profissionais que usam as mídias sociais para expandir o aprendizado para além da sala de aula. A cerimônia ocorreu em Dubai, nos Emirados Árabes, na segunda-feira (2). Débora Garofalo foi reconhecida como a educadora mais influente do mundo pela Varkey Foundation Arquivo Pessoal Ao g1, Débora contou que recebeu no último sábado (31) um telefonema de um diretor da Varkey Foundation informando que ela precisava ir para Dubai porque teria um reconhecimento, mas não deu detalhes sobre o que seria. "Ele me ligou e falou: 'Débora, eu tenho uma boa notícia para você. Você precisa vir para Dubai'. Eu disse: 'Como assim?' Geralmente eles fazem essa reunião com os embaixadores e a celebração do Global Teacher Prize, mas sempre estão trocando os professores e o ano passado já tinha ido como convidada. Então, eu não sabia de nenhum detalhe porque eles falaram que não podiam dizer que reconhecimento seria. Fui pega de surpresa e só no jantar eu só soube que era uma premiação", afirmou. Débora Garofalo foi reconhecida como a educadora mais influente do mundo pela Varkey Foundation Divulgação Para Débora, o reconhecimento vai além da conquista individual e simboliza anos de dedicação à educação pública. "Receber esse prêmio foi uma grande emoção. O sentimento que eu tenho é de que não é somente a Débora que foi receber o prêmio. São todos os estudantes, são todos os professores, são todas as redes de ensino, e é o nosso país ali representado. Eu só fui lá representar todas essas vozes e acho que a gente pode dar ainda mais voz para a educação pública do nosso país", afirmou. E complementou: "Ele [prêmio] aumenta a minha responsabilidade também, uma responsabilidade mundial que eu herdo com ele de poder continuar dando voz à educação. Feliz por elevar a nossa educação ao nível mais alto do mundo". Professora de São Paulo Débora Garofalo foi reconhecida como a educadora mais influente do mundo Arquivo Pessoal Projeto de robótica Em 2015, Débora dava aula de tecnologias na Escola Municipal Almirante Ary Parreiras, em São Paulo, unidade que fica perto de quatro favelas conhecidas pela violência e com sérios problemas de despejo de lixo. Foi por conta desse problema com lixo que surgiu a ideia do projeto "Robótica com sucata promovendo a sustentabilidade". “Eles [alunos] começaram a me relatar que não iam para a escola em dia de chuva por causa da questão do lixo. A rua da escola, o muro da escola, era um muro tomado de lixo. Era necessário fazer alguma coisa”, contou Débora, na época, em entrevista ao Jornal Nacional. Débora Garofalo em sala de aula em São Paulo. Divulgação A professora, então, começou a recolher sucata pelas ruas da cidade e trazer para a sala de aula para ensinar robótica aos estudantes de 6 a 14 anos. O resultado? Robôs, controles remotos e diversos protótipos de carrinhos, aeronaves, barcos e até máquina de refrigerante com o material recolhido. A ação resultou no aproveitamento de mais de uma tonelada de materiais recicláveis. Entre os 10 melhores professores do mundo Professora brasileira é uma das dez finalistas do maior prêmio de educação do mundo O trabalho de Débora foi selecionado entre mais de 10 mil candidatos de 179 países. A lista dos 50 melhores professores do mundo, divulgada em dezembro de 2018, tinha representantes de 39 países. Já o top 10 de melhores educadores do planeta, divulgado em fevereiro de 2019, contou com representantes de Reino Unido, Holanda, Japão, Argentina, Estados Unidos, Quênia, Índia, Geórgia, Austrália e Brasil. Na época, a professora afirmou ao g1 que recebeu a notícia em casa, e que se emocionou ao saber que estava entre os 10 melhores professores do mundo. "Eles me ligaram, fizeram um ar de mistério e de repente, com grande público reunido, na Argentina, me deram a notícia. Foi uma imensa alegria, ver todos reunidos, aplaudindo... Chorei muito, já que eu não esperava. Sem dúvida, foi uma grande surpresa pra mim. Ainda mais depois de passar pelo Top 50 e ver o quanto todos esses professores têm trabalhos maravilhosos. Agora, com nosso trabalho entre os 10, é uma alegria muito grande!", afirmou. Como professora brasileira entre 10 melhores do mundo quer revolucionar escola pública 'A educação transformou minha vida e vai transformar a deles': conheça os brasileiros entre os 50 melhores professores do mundo Para a escolha, o comitê de premiação levou em consideração o emprego de práticas educacionais escalonáveis, inovadoras, que tenham resultados visíveis, causem impacto na comunidade, melhorem a profissão docente e ajudem os alunos a tornarem-se cidadãos. O anúncio foi feito em vídeo pelo ator australiano Hugh Jackman, famoso pelo papel de "Wolverine", para quem os professores são "os verdadeiros super-heróis", e que aproveitou para fazer uma declaração emocionada ao professor que o inspirou, Lisle Jones. A cerimônia foi realizada em março de 2019. O vencedor foi o queniano Peter Tabichi, que dá aula para jovens muito pobres na área rural desértica. Na época, ao Jornal Nacional, a professora ressaltou: “Todos nós, brasileiros, já somos vencedores. O nosso sonho não acaba aqui. Ele só está começando”. Após o reconhecimento, Débora passou a ocupar funções estratégicas na gestão pública, com atuação na Secretaria Estadual de Educação de São Paulo para implementar a disciplina de tecnologias dentro do programa Inova Educação, e na Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro. Atualmente, ela desenvolve projetos e ações educacionais. Professora de São Paulo Débora Garofalo foi reconhecida como a educadora mais influente do mundo Arquivo Pessoal Débora Garofalo Divulgação
05
FEB
EXCLUSIVO: Documentos sigilosos mostram que correção da redação do Enem 2025 seguiu 'regras' diferentes de anos anteriores
Documentos mostram mudança de critérios na correção da redação do Enem 2025 Vinícius de Oliveira, estudante do 5º ano de medicina e mentor de vestibulandos, faz o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) anualmente. De 2021 a 2024, suas notas na redação foram, nesta ordem: 900, 960, 980, 920 e 940. Em 2025, ele tirou 760. “Nem quando fiz a prova só para brincar tirei essa nota. É muito estranho. A percepção é que essa correção foi meio sorteio: alguns corretores foram mais rígidos, outros foram flexíveis”, diz. Guilherme*, de 23 anos, nunca havia obtido uma nota abaixo de 900. Na redação do Enem 2025, alcançou apenas 740 pontos. “Não uso modelo pronto de texto. Não desaprendi a escrever no dia da prova nem estava nervoso. O Enem virou uma grande bagunça”, afirma. Casos como estes levaram candidatos a desconfiar de uma possível mudança de critérios na correção dos textos no Enem 2025. Desde 16 de janeiro, quando as notas foram oficialmente divulgadas, centenas de relatos nas redes sociais sobre quedas de desempenho alimentaram essa suspeita. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo exame, negou qualquer alteração (leia mais abaixo). ➡️ Mas o g1 teve acesso a documentos oficiais e sigilosos, a cópias de e-mails e a depoimentos de corretores que revelam a existência de três diferenças em 2025, suficientes para alterar a forma como os textos foram corrigidos: 1- Regra mais aberta e menos detalhada na competência 4, sobre o uso de elementos coesivos, como “dessa forma” e “consequentemente” O que antes era estabelecido matematicamente, com a contagem desses termos para determinar a nota do aluno, foi substituído por noções mais subjetivas. Coube à banca classificar a presença das expressões coesivas como “pontual”, “regular”, “constante” ou “expressiva”. “A gente perdeu parâmetro. Era um outro direcionamento antes. No fim das contas, cada um levou em conta uma orientação”, diz um corretor *. 2024: Competência 2 - critérios do Enem 2024 Arquivo pessoal 2025: Competência 4 - regra do Enem 2025 Arquivo pessoal Punição maior na competência 5, no caso de candidatos que escrevessem a proposta de intervenção sem o elemento “ação” Exemplo de redação do Enem 2025 que recebeu punição maior por não trazer o elemento 'ação' Arquivo pessoal Cabe ao aluno, na redação do Enem, sempre elaborar uma alternativa que soluciona o problema apresentado no texto. Pode ser uma política pública organizada por um ministério ou uma campanha de conscientização promovida pela imprensa, por exemplo. É obrigatório ter 5 itens: ação (o que deverá ser feito?); agente (por quem?); finalidade (com que objetivo?); meio (de que forma?) e detalhamento da ideia. Assim como nos anos anteriores, deixar 1 dos 5 elementos de fora levaria à perda de 40 pontos. Mas uma nota de rodapé em 2025 acrescentou uma nova orientação: o aluno que esquecesse especificamente o item “ação” teria uma punição maior, de 120 pontos. “Tem aluno que esquece e que coloca a ‘ação’ de forma que parece finalidade. Isso causou a perda de mais pontos do que ele pensava. Ainda vem o Inep e diz que não houve modificação?”, questiona um corretor *. Ampliação do peso dado ao repertório sociocultural A grade de correção, que estabelece os critérios detalhados que devem ser seguidos pela banca, não havia trazido nenhuma mudança em 2025 neste aspecto: os candidatos deveriam fazer referências a autores, a livros ou a filmes, por exemplo, para embasar seus argumentos. Citações genéricas, sem a devida contextualização (“repertórios de bolso”), não deveriam ser consideradas válidas. Esse combate aos “modelos prontos” de redação foi comunicado explicitamente no Manual do Candidato, em setembro de 2025, dois meses antes do Enem. Essa questão seria avaliada na competência 2. ➡️Mas um documento extra, enviado aos corretores depois dos treinamentos presenciais, mudou essa diretriz — passou a estabelecer que a competência 2 deveria dialogar com a 3. Ou seja, repertórios socioculturais avaliados de maneira negativa pela banca passaram a ser punidos em duas competências, não mais em uma. Segundo os corretores ouvidos pela reportagem, esta foi a principal explicação para a queda inesperada nas notas de tantos alunos. Trecho de documento confidencial que estabelece ligação entre duas competências Arquivo pessoal Inep reforça que não houve alterações “Não houve nenhuma mudança no critério de correção. São os mesmos corretores e a mesma instituição aplicadora [Cebraspe]. A equipe de capacitação é daqui do Inep e usou os mesmos critérios”, disse ao g1, no fim de janeiro, Manuel Palacios, presidente do Inep. Em nota, o órgão do Ministério da Educação (MEC) afirmou ainda que as provas são corrigidas por ao menos dois avaliadores, com previsão de terceira correção em caso de divergência, “garantindo equilíbrio, justiça e tratamento isonômico a todos os participantes”. Por que uma alteração não comunicada é problemática? De forma inédita, o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) passou a aceitar as notas das últimas três edições do Enem (2023, 2024 e 2025) ao classificar alunos para universidades públicas em 2026. Ou seja: aqueles que “estrearam” no exame e só puderam concorrer com a nota de 2025 sentiram-se injustiçados ao disputar vagas com veteranos, supostamente avaliados com menos rigidez. “É como comparar banana com maçã. A correção de 2025 foi mais rigorosa e subjetiva que nos anos anteriores”, afirma Sérgio Paganim, coordenador de redação do Curso Anglo. Luana*, de 24 anos, partiu de 920 (2023) e de 940 (2024) para… 720 (2025). “Isso não representa uma evolução negativa, e sim uma instabilidade no processo avaliativo”, diz. Gabriel Gaspar, por exemplo, foi aprovado em medicina na Universidade de São Paulo (USP), pelo vestibular próprio da instituição (Fuvest). “Desisti do Sisu depois que vi minha nota na redação do Enem cair de mais de 900 para 700 e pouco. Não sabia de nenhuma dessas mudanças. Se eu dependesse só dessa prova, teria perdido mais um ano inteiro de preparo”, afirma. R$ 3 por texto corrigido As mudanças tardias e não comunicadas previamente somam-se aos relatos sobre as condições de trabalho dos corretores: eles ganham, em geral, cerca de R$ 3 por cada dissertação corrigida. Chegam a ler 200 textos em um mesmo dia, com instabilidades no sistema e dificuldades de comunicação com seus supervisores. “Nos intervalos dos treinamentos presenciais, a gente falava: ‘ah, vai mudar isso’. A outra pessoa, de outra sala, respondia: ‘ué, minha supervisora não falou isso’. Foram muitos ruídos de comunicação no processo de formação”, diz a corretora Geralda*. Essa precarização colabora para afastar a mão de obra qualificada. O g1 entrou em contato com o Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe), que substituiu a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e tornou-se o responsável pela correção das redações desde 2023. Em resposta, o órgão afirmou que apenas o Inep pode responder sobre o Enem. O Inep, por sua vez, não respondeu às questões relacionadas à remuneração e à sobrecarga de trabalho dos profissionais. * Os nomes dos entrevistados foram mantidos em sigilo a pedido deles. Corretores de redação do Enem assinam um termo de sigilo sobre o trabalho que executam. ENEM 2025 - DOMINGO (16) – RIBEIRÃO PRETO (SP) – Caderno de prova laranja no 2º dia de prova Érico Andrade/g1