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APR
O que é a leitura profunda e por que ela faz bem para o cérebro
Pesquisas mostram que ler transforma o nosso cérebro. Getty Images via BBC "Não há nada menos natural do que ler" para os seres humanos. É o que aponta a pesquisa da neurocientista Maryanne Wolf — e isso não é, de forma alguma, algo ruim. "A alfabetização é uma das maiores invenções da espécie humana", diz a especialista americana. Além de útil, é tão poderosa que transforma nossas mentes. "Ler literalmente muda o cérebro." Mas o avanço da tecnologia e a proliferação das mídias digitais têm modificado profundamente a forma como lemos. Caneta e papel ou teclados? Estudo revela o que alunos preferem Apesar de estarmos lendo mais palavras do que nunca — uma média estimada de cerca de 100 mil por dia —, a maioria vem em pequenas pílulas nas telas de celulares e computadores, e muita coisa é lida "por alto". Essas mudanças de hábito têm preocupado cientistas porque, entre outros motivos, a transformação de novas informações em conhecimento consolidado nos circuitos cerebrais requer múltiplas conexões com habilidades de raciocínio abstrato que muitas vezes faltam na leitura digital. Um universo de símbolos Ao contrário da linguagem oral, da visão ou da cognição, não existe uma programação genética nos humanos para aprender a ler. Se uma criança, em qualquer parte do mundo, estiver em um ambiente em que as pessoas a seu redor conversam umas com as outras, sua linguagem será naturalmente ativada. O mesmo não acontece com a leitura, que implica a aquisição de um código simbólico completo, visual e verbal. É uma invenção relativamente recente — "é uma piscadela em nosso relógio evolutivo: mal tem 6 mil anos", diz Wolf. Cada pessoa que aprende a ler tem que criar um novo circuito em seu cérebro. Getty Images via BBC "Começou de forma simples, para marcar quantas taças de vinho ou ovelhas tínhamos. E, com o nascimento dos sistemas alfabéticos, passamos a ter um meio eficiente de armazenar e compartilhar conhecimento", ressalta a neurocientista. "Ler é um conjunto adquirido de habilidades que literalmente muda o cérebro. Permite fazer novas conexões entre regiões visuais, regiões da linguagem, regiões de pensamento e emoção", completa. Essa transformação começa com cada novo leitor. "(A habilidade de ler) Não existe dentro de nossa cabeça. Cada pessoa que aprende a ler tem que criar um novo circuito em seu cérebro." E isso abre portas para um novo mundo. Saúde mental A leitura tem muitos benefícios terapêuticos, segundo especialistas. Getty Images via BBC "A leitura traz três poderes mágicos: criatividade, inteligência e empatia", pontua Cressida Cowell, escritora de literatura infantil e autora da série Como Treinar Seu Dragão. "Ler por prazer é um dos fatores-chave para o sucesso financeiro de uma criança na vida adulta. É mais provável que ela não acabe na prisão, que vote, que tenha casa própria…" Além disso, "ler uma grande história é muito mais do que entretenimento", acrescenta a biblioterapeuta Ella Berthoud. "A leitura, na verdade, tem muitos benefícios terapêuticos. Seu cérebro entra em um estado meditativo, um processo físico que retarda o batimento cardíaco, acalma e reduz a ansiedade", diz Berthoud. Para ela, por exemplo, ler o romance Zorba, o Grego, de Níkos Kazantzákis, funciona como um remédio conta "claustrofobia, raiva e exaustão". A arte de prescrever ficção para curar as doenças da vida, batizada de biblioterapia, foi reconhecida no Publisher's Illustrated Medical Dictionary, um dicionário médico ilustrado publicado nos Estados Unidos em 1941. A prática remonta à Grécia Antiga, quando avisos eram afixados nas portas das bibliotecas para alertar os leitores de que estavam prestes a entrar em um local de cura da alma. No século 19, psiquiatras e enfermeiras prescreveram todos os tipos de livros para seus pacientes, desde a Bíblia até literatura de viagem e textos em línguas antigas. Vários estudos mais recentes, dos séculos 20 e 21, mostraram que a leitura aguça o pensamento analítico, o que nos permite aprimorar nossa capacidade de discernir padrões, uma ferramenta muito útil diante de comportamentos desconcertantes dos outros e de nós mesmos. A ficção, em particular, pode transformar os leitores em pessoas mais socialmente habilidosas e empáticas. Os romances, por sua vez, podem informar e motivar, os contos confortam e ajudam a refletir, enquanto a leitura de poesia já demonstrou estimular partes do cérebro relacionadas à memória. Muitos desses benefícios, no entanto, dependem de um estado conhecido como "leitura profunda". 'Leitura profunda significa que fazemos analogias e inferências'. Getty Images via BBC Pensamento analítico "Quando lemos em um nível superficial, estamos apenas obtendo a informação. Quando lemos profundamente, estamos usando muito mais do nosso córtex cerebral", explica Maryanne Wolf. "Leitura profunda significa que fazemos analogias e inferências, o que nos permite sermos humanos verdadeiramente críticos, analíticos e empáticos." Em seu livro Proust and the Squid: The Story and Science of the Reading Brain (Proust e a Lula: a História e a Ciência por Trás do Cérebro que Lê, em tradução livre), a especialista em neurobiologia da leitura explica como, "a certa altura, quando uma criança vai da decodificação à leitura fluente, o caminho dos sinais através do cérebro muda". "Em vez de percorrer um trajeto dorsal (...), a leitura passa a se deslocar por um caminho ventral, mais rápido e eficiente. Como o tempo depreendido e o gasto de energia cerebral são menores, um leitor fluente será capaz de integrar mais seus sentimentos e pensamentos à sua própria experiência", escreve. "O segredo da leitura está no tempo que ela libera para que o cérebro possa ter pensamentos mais profundos do que antes." Mas, enquanto o processo de aprender a ler muda nosso cérebro, o mesmo acontece com o que lemos e como lemos. Tempos modernos Avanço da tecnologia e a proliferação das mídias digitais têm modificado profundamente a forma como lemos. Getty Images via BBC Há aqueles, contudo, que acreditam que as novas plataformas são parte da solução, e não do problema. Para Chris Meade, autor que utiliza vários tipos de mídia para veicular seu trabalho, "pensamos no livro como a obra, mas o livro é apenas um mecanismo de entrega". A narrativa transmídia é um tipo de história em que o enredo se desenrola por meio de múltiplas plataformas — aplicativos, livros digitais, games, quadrinhos, blogs — e na qual os consumidores podem assumir um papel ativo no processo de construção. "As novas mídias estão dando voz a uma nova geração de escritores. Elas impedem que nos condicionemos a pensar que existe apenas um tipo de 'boa escrita' e permitem que as pessoas simplesmente compartilhem histórias e experiências", opina Natalie A. Carter, cofundadora do clube do livro Black Girls Book Club. "Não importa o meio, é a história que importa", emenda Melissa Cummings-Quarry, também cofundadora do Black Girls Book Club. "O romance está evoluindo. Há todo tipo de livro incrível sendo escrito especificamente para ser lido no celular", afirma Berthoud. "O livro talvez passe a ilusão de que ele é tudo. Nunca foi, é uma forma de entrar em um processo de pensamento", diz Meade. Ainda assim, os cientistas afirmam que a leitura digital pode ter um custo para o cérebro do leitor. Fragmentação "Reunimos acadêmicos e cientistas de mais de 30 países para pesquisar o impacto das mídias digitais na leitura", afirma Anne Mangen, à frente da E-READ (Evolução da Leitura na Era da Digitalização), organização cujo objetivo é melhorar a compreensão científica das implicações da digitalização da cultura. Faz parte do programa internacional da Cooperação Europeia em Ciência e Tecnologia (COST, na sigla em inglês), que considera a leitura um "tema urgente". Segundo o programa, "a pesquisa mostra que a quantidade de tempo gasto na leitura de textos longos está diminuindo e, devido à digitalização, a leitura está se tornando mais intermitente e fragmentada", algo que poderia "ter um impacto negativo nos aspectos cognitivos emocionais da leitura". "Descobrimos que existe o que se chama de inferioridade na tela", destaca Anne Mangen. "Há muitas coisas que podem ser lidas igualmente bem no smartphone, como as notícias mais curtas, mas, quando se trata de algo que é cognitiva ou emocionalmente desafiador, ler em uma tela leva a uma compreensão de leitura pior do que ler no papel", diz ela. Maryanne Wolf concorda, dizendo que "a realidade é que não é apenas o que ou o quanto lemos, mas como lemos que é realmente importante". "O próprio volume [de informação disponível nas plataformas digitais] está tendo efeitos negativos porque, para absorver tanto, há uma propensão a se ler 'por alto'. O cérebro leitor tem um circuito plástico, que refletirá as características do meio em que se lê. As características do digital caminham para que sejam refletidas no circuito." Em outras palavras, assim como ao aprender a ler da maneira tradicional o cérebro formata e registra os itinerários da razão e os caminhos para a emoção, ao aprender a ler da maneira como fazemos nas mídias digitais o cérebro traçará diferentes trajetórias e, se deixarmos a leitura profunda de lado, ele apagará as anteriores, caso tenham um dia existido. "Se não treinarmos essas habilidades, podemos acabar perdendo a capacidade de entender conteúdos mais complexos e, talvez, de nos envolvermos e usarmos a imaginação", destaca Mangen. Então, o que o futuro reserva para os livros e para o cérebro da leitura? "A imaginação humana é uma coisa fantástica, somos muito flexíveis. Encontramos maneiras de fazer o que queremos com a tecnologia disponível", pontua Chris Meade. Para Natalie Carter, o futuro trará "muito mais coleções de contos, e acho que veremos muito mais livros curtos". Nesse sentido, Cressida Cowell diz já ter sentido a mudança: "Mudei a maneira como escrevo, porque o tempo de atenção das crianças diminuiu. Os livros têm capítulos curtos e são incrivelmente visuais, brilhantes, como doces". Para a neurocientista Maryanne Wolf, "assim como as pessoas podem ser bilíngues e trilíngues, minha esperança é que desenvolvamos um cérebro 'biletrado'. Podemos nos disciplinar para escolher o meio que melhor se adapta ao que estamos lendo e, assim, não perder o dom extraordinário que a leitura deu à nossa espécie". *Este texto é baseado no vídeo "O que a leitura em telas faz com nosso cérebro?", da BBC Ideas e The Open University e foi publicado originalmente em 1 de novembro de 2021.
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APR
'cpa nn vou p rz': entenda o vocabulário jovem que fez a atriz Ingrid Guimarães 'perder aura'
Conversa entre Ingrid Guimarães e a filha, Clara Reprodução/Redes sociais "pprt. cpa nn vou p rz." Antes que você ache que um gato pisou no teclado do computador do g1, saiba que que a frase acima pode chegar a qualquer momento ao seu Whatsapp, no chat com algum jovem. Traduzindo para o português tradicional (ou para o vocabulário de quem nasceu antes dos anos 2000), seria algo como: "Sem enrolação, já te digo que talvez eu não vá para esse encontro com nossos amigos." Esse desespero de não compreender a sopa de letrinhas da "gen Z" foi compartilhado na última sexta-feira (24), pela atriz Ingrid Guimarães, que mostrou trechos de uma conversa com a filha, Clara, de 16 anos. "Você está perdendo o português", digitou a mãe, após não entender absolutamente nada do que a adolescente havia digitado. Abaixo, veja a tradução dessas abreviações e gírias (para não ter o mesmo fim que Ingrid e perder 1.000 de aura): cpa: Abreviação de "se pá" (ou "cipá"). Significa "talvez", "pode ser", "se der", "quem sabe". Exemplo: "Cpa eu vou" = Talvez eu vá. pprt (que não aparece no print, mas é bem comum): Papo reto (de verdade, sem enrolação). rz: Abreviação de resenha. Refere-se a rolê, encontro com os amigos, conversa, festa ou qualquer programa descontraído e divertido. Exemplo: "Vou pra rz" = Vou pra resenha (vou sair com a galera). nn: não. Pois é, para economizar uma letra na digitação. amnh: Abreviação simples de amanhã (jovens não parecem ter muito apreço por vogais). várzea: Algo bagunçado, caótico, divertido de um jeito desorganizado. Exemplo: "Vai ser mó várzea" = "Vai ser bagunçado/ vai ser bem louco/divertido." -1000 aura: Alguém perdeu muito status, passou vergonha, fez algo sem carisma, ficou com "vibe" negativa. Perder "-1000 aura" é o oposto de "ganhar aura" ("ficar bem na fita"). você não tem aura, mano: Frase usada para zoar ou criticar alguém que está sem carisma, sem graça, agindo de forma "beta" ou sem estilo. É como dizer: "Você não tem presença / não tá mandando bem / tá sem vibe". Bem comum em tom de zoeira entre amigos. se pa: O mesmo que cpa. Variação de "se pá" → talvez, "pode ser", "se rolar". Exemplo: "Se pa eu vou amanhã" = Talvez eu vá amanhã. Vídeos em alta no g1 Outras abreviações que não estavam na conversa exposta por Ingrid, mas que podem assustá-la a qualquer momento: fds: Atualmente, entre os jovens, quase sempre significa um palavrão "f***-se". É uma expressão de indiferença, rebeldia, “não tô nem aí”. Alerta: antigamente, era mais usado como “fim de semana”. Uma mudança bem significativa, digamos assim. tmj: Tamo junto (apoio, concordância, “estamos juntos”). Atriz Ingrid Guimarães e a filha, Clara Reprodução/Redes sociais Vídeos ‘6 7’ ou ‘six seven’: os dois números que viraram pesadelo para professores de inglês O que é 'farmar aura'? Professora cria sistema para monitorar alunos que ‘farmam aura’
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APR
Como a bicicleta ajudou mulheres indianas a ler, escrever e ter uma vida melhor
A bicicleta trouxe energia e entusiasmo à campanha pela alfabetização na Índia, nos anos 1990. P Sainath/PARI via BBC "A Índia se tornou um país independente em 1947, mas eu só ganhei minha independência em 1992", conta Jayachithra, de 55 anos. Ela trabalha como diretora de uma escola estatal no sul da Índia. Sua vida mudou há 33 anos, quando uma autoridade distrital fez uma alteração pequena, mas radical, da Missão Nacional de Alfabetização que se espalhava pelo país. Ela incentivou as mulheres a aprender a andar de bicicleta. Jayachithra foi uma das 100 mil mulheres de famílias rurais e conservadoras que ganharam mobilidade, independência e liberdade pedalando pelas ruas. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Muitas daquelas mulheres raramente se aventuravam a sair de casa naquela época. E algumas das que aprenderam a andar de bicicleta no início dos anos 1990 viriam a trabalhar em escritórios, recebendo altos salários. A medida acabou mudando o futuro delas e das suas filhas e netas. Andar de bicicleta ajudou as mulheres a ganhar tempo nas suas tarefas diárias, como ir buscar água e deixar as crianças na escola. Arivoli Iyakkam via BBC Caminho pioneiro Em 1988, a Índia criou sua Missão Nacional pela Alfabetização, para promover a leitura, a matemática e a consciência sobre os direitos fundamentais. O distrito de Pudukkottai fica no extremo sul da Índia, no Estado de Tamil Nadu. Ali, este programa ficou conhecido como o "Movimento da Iluminação". Menos da metade das mulheres do distrito sabiam ler e escrever, segundo o censo de 1991. Eram cerca de 270 mil mulheres não alfabetizadas em Pudukkottai. "Durante as discussões sobre a missão da alfabetização, ficou evidente que as mulheres seriam as principais beneficiárias", relembra Kannammal, coordenador do Movimento da Iluminação, que estava presente na oportunidade. A campanha calculou que seriam necessários 30 mil voluntários para lecionar para aquelas mulheres. Era um desafio logístico, que levaria à criação do programa das bicicletas. A coletora do distrito, Sheela Rani Chunkath, recebe algumas das novas ciclistas do programa. Arivoli Iyakkam via BBC O problema era que as famílias das mulheres não alfabetizadas esperavam receber professoras mulheres, mas muito poucas tinham seu próprio meio de transporte. "Naquela época, as mulheres não tinham acesso a bicicletas ou motocicletas", conta ao serviço em língua tâmil da BBC a então servidora civil sênior do distrito, Sheela Rani Chunkath. "Elas não conseguiam viajar de forma independente. Achei importante criar esta oportunidade", conta Chunkath. "As bicicletas deram às mulheres uma sensação de liberdade e autoconfiança." "Algumas autoridades eram contra o recrutamento de mulheres voluntárias", relembra Kannammal. "Eles diziam que as mulheres não poderiam ir às aldeias remotas, mas a coletora do distrito [Chunkath] rejeitou seus argumentos." "Quando as mulheres começaram a viajar de forma independente, percebi que elas poderiam fazer tudo", prossegue Kannammal. "Aquilo abriu o caminho para que elas derrubassem todas as outras barreiras construídas pelos homens." Histórias de sucesso Jayachithra credita grande parte do seu sucesso ao programa de bicicletas. Via BBC O projeto ajudou inúmeras mulheres de classes sociais muito diferentes, tanto professoras quanto estudantes. "Naquela época, eu vivia como uma escrava", relembra Jayachithra. Ela possui nível de educação mediano. "Meu pai não me permitia nem mesmo abrir as janelas e olhar para fora." Naquela época, as mulheres solteiras eram frequentemente mantidas fora da visão dos homens. "Depois de completar 10 anos de idade, minha família me pediu para aprender a costurar ou datilografar", relembra ela. Estes empregos costumavam ser considerados seguros e apropriados para as mulheres. Jayachithra tinha nota 99 de matemática e acabou se sentindo reprimida por estas sugestões. Sua mãe, então, penhorou seu colar de casamento para pagar o ensino para que Jayachithra se tornasse professora. Como parte da missão de alfabetização, ela foi selecionada para lecionar para mulheres muçulmanas, em uma aldeia vizinha. Jayachithra percebeu que não conseguiria chegar até lá a pé e aproveitou a oportunidade para aprender a andar de bicicleta. "Comecei a usar longas saias e meios-sáris", relembra ela. "Não havia bicicletas femininas na época e, por isso, aprendi em uma masculina." Isso trazia novos problemas. A bicicleta feminina tem uma barra mais baixa conectando o guidão ao assento, o que facilita para as mulheres montar e pedalar usando sári. Jayachithra caiu algumas vezes, mas a recompensa a entusiasmou. "Minha vida mudou drasticamente. Eu me sentia como uma borboleta. Eu aguardava ansiosamente a chegada da noite, quando saía pedalando para as aulas." "No início, meu pai não aprovava, até que ele mudou de opinião e comprou uma bicicleta para mim", relembra ela. "Foi o melhor dia da minha vida." Vasantha valoriza a educação e, agora, ajuda sua neta Naveena a buscar carreira na medicina. Via BBC Vasantha, agora com quase 60 anos, não sabia ler e escrever. Ela vem de uma família pobre da casta dalit, que sofreu séculos de exclusão social. Ela se casou jovem e seu marido também era analfabeto. Representantes do Movimento da Iluminação entraram em contato com Vasantha. Na época, ela trabalhava em uma pedreira, quebrando pedras com ferramentas manuais. Naquela época, as bicicletas já eram parte integrante do projeto e as participantes também podiam aprender a pedalar. "Pessoas do movimento de alfabetização nos disseram que poderíamos ganhar bicicletas se aprendêssemos a andar nelas", conta Vasantha à BBC. Ela era tímida e, inicialmente, se sentiu constrangida. Mas não conseguiu resistir à onda de entusiasmo que invadiu sua aldeia. "Naquela época, muito poucas residências da nossa aldeia tinham bicicleta, mas eu consegui pegar uma emprestada e aprender a andar", ela conta. Posteriormente, ela conseguiu comprar sua própria bicicleta, que usava regularmente para pegar água para levar para casa. Depois de aprender a ler, escrever e contar, Vasantha se associou a três outras estudantes. Elas alugaram uma pedreira e começaram seu próprio negócio. Vasantha afirma que o programa das bicicletas alimentou sua confiança e fez com que ela ganhasse liberdade e respeito. Agora, ela ajuda sua neta, que deseja ser médica. Legado duradouro No início dos anos 1990, era raro ver mulheres da zona rural se movimentarem de forma independente em Pudukkottai, no extremo sul da Índia. Arivoli Iyakkam via BBC Hoje em dia, podemos encontrar dezenas de mulheres como Vasantha em quase todas as aldeias de Pudukkottai. Algumas abriram pequenos negócios e muitas trocaram seu trabalho sazonal na agricultura por empregos de nível júnior em empresas. A alfabetização ajudou as mulheres a compreender que elas recebiam muito menos. Em muitos casos, elas reivindicaram aumentos salariais com sucesso. A bicicleta libertou as mulheres, que não precisavam mais depender dos seus parentes homens para sair de casa, em uma época em que a maioria das aldeias não tinha estradas adequadas e o transporte público era pouco desenvolvido. No dia 11 de agosto de 1992, o distrito de Pudukkottai foi declarado livre do analfabetismo. Hoje em dia, é comum encontrar mulheres andando de bicicleta em Pudukkottai. Mas Jayachithra não é uma delas. Agora, ela anda de lambreta e sua filha comprou um carro. Como a bicicleta ajudou mulheres indianas a ler, escrever e ter uma vida melhor. Via BBC "A bicicleta trouxe confiança para pessoas como eu", conta Jayachithra. "Ela me fez perceber que não preciso depender de ninguém."