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MAY
Provas 'Anti-Valentina' e 'Anti-Enzo II' testam se você é adulto 'raiz' e domina truques analógicos
Você se incomoda quando está escutando música pelo celular, mas a internet cai? É um problema gigante para Enzos e Valentinas que não têm nenhum álbum baixado naqueles aplicativos de áudio. Pois bem: no passado, Maurícios e Patrícias que curtiam os embalos de sábado à noite tinham de apelar para outro recurso quando o vinil travava na vitrola. Sabe qual? É esse tipo de conhecimento "retrô" que vai ser testado abaixo, na nova versão da Prova Anti-Enzo, criada pela página "Geração 35+ Original" e cedida ao g1. E ainda há uma faixa bônus: a Prova Anti-Valentina. Teste abaixo se você domina os macetes dos 35+ e pode ser considerado um adulto raiz. Aos pais e mães que escolheram dar ao filho ou à filha o nome de Enzo, Maurício, Valentina ou Patrícia: não se sintam diminuídos. Toda geração tem seus memes (que, em algum momento, são esquecidos!). Prova 'Anti-Valentina' Ligue as duas colunas e veja se conhece os macetes abaixo. As respostas estão no fim da matéria. Do mesmo criador da Prova Anti-Enzo, outro teste relembra truques do passado Reprodução/Geração 35+ Original Prova Anti-Enzo (parte 2) A parte 1 está neste link. Confira o gabarito mais abaixo. Prova Anti-Enzo, parte 2: quem é adulto raiz? Reprodução/Geração 35+ Original Respostas: Prova 'Anti-Valentina' Galinho de Cerâmica e a nuvem de chuva (1-D): O nosso "Climatempo" raiz mudava de cor quando previa chuva. Faca de Serra e Lápis (2-E): Antes do apontador (um item gourmet para os 35+), o jeito era usar uma faca de cozinha. Máquina de Costura e carro (3-B): O primeiro simulador de corrida da história era imaginário: o pedal da máquina virava o acelerador. Pasta de Dente e CD (4-C): O suporte técnico oficial da época — se o disco riscou, era só "escovar" o CD para nivelar a superfície. Moeda e Vinil (5-A): A nossa engenharia avançada usava uma moedinha de 10 centavos como peso, para a agulha não pular na melhor parte da música. Prova 'Anti-Enzo' (parte 2) Pilha e geladeira (1-C): Pois é, para a pilha ganhar uma sobrevida, passava um pouco de frio, coitada. Mouse e bolinha (2-D): Essa pequena esfera ficava dentro do mouse e era um "ímã" de sujeira. Depois de limpá-la, o deslize ficava perfeito. Feijão no pote de sorvete (3-B): Talvez você conheça alguém que tenha ficado traumatizado após procurar um sorvete no congelador e... encontrar feijão guardado. Bala soft e perigo (4-E): Essa balinha engasgou muita gente. Tazo no salgadinho (5-A): Esse disquinho de plástico vinha todo engordurado no pacote de batatas e servia para "bater bafo". Vídeo Prova Anti-Enzo: teste seus conhecimentos analógicos
08
MAY
A verdadeira origem do mito racista do ariano
A verdadeira origem do mito racista do ariano Na ideologia nazista, o “ariano” ideal era descrito como loiro, de olhos azuis e atlético. Os nazistas apresentavam os “arianos” como uma suposta raça superior, supostamente originária do norte da Europa. Os judeus, classificados como “não arianos”, foram excluídos, perseguidos e assassinados pelo regime Mas uma descoberta arqueológica mostra que o termo “ariano” existe há muito mais tempo — e tinha um significado completamente diferente antes de ser apropriado e distorcido pela propaganda nazista. A origem "ariana" em inscrição de 2 mil anos Em Naqsh-e Rostam, no Irã, o rei Dario I mandou esculpir um monumento por volta de 500 a.C. Nele, está escrito: “Eu sou Dario, o Grande... um persa, filho de um persa, um ariano, de ascendência ariana.” O próprio nome Irã significa “Terra dos Arianos”, em referência à herança cultural da antiga Pérsia. Originalmente, Arya era uma forma de autodenominação usada por povos da Índia e do Irã. Até Mohammad Reza Pahlavi se referia a si mesmo como a “Luz dos Arianos”. A palavra Arya também aparece em textos sagrados da Índia. Parte dos pesquisadores acredita que os povos que se autodenominavam arianos descendiam de grupos nômades originários de regiões que hoje correspondem à Ucrânia, ao Cazaquistão e ao sul da Rússia. Inicialmente, estudiosos europeus usavam o termo “ariano” não para definir uma raça biológica, mas para se referir a uma família linguística compartilhada. O significado original do termo estava ligado a identidade cultural e linguística, e não à ideia de raça criada posteriormente por teóricos racistas europeus. Líder nazista Adolf Hitler. Reuters Foi apenas no século 19 que o conceito passou a ser reinterpretado de forma racista. Um dos principais nomes ligados à disseminação da ideia de uma “raça ariana” foi o escritor francês Joseph Arthur de Gobineau. Ele defendia teorias racistas segundo as quais a população branca teria uma “inteligência imensamente superior” e que outros grupos deveriam se submeter a ela. Com o tempo, essas teorias ganharam forte caráter antissemita. As ideias de Gobineau também influenciaram Houston Stewart Chamberlain, que exaltava os povos teutônicos como uma raça supostamente superior aos judeus. As obras de Chamberlain tiveram grande influência sobre a ideologia racial nazista. Ele e Adolf Hitler chegaram a se encontrar pessoalmente em 1923. Foi assim que o regime nazista passou a distorcer e se apropriar do termo “ariano” em sua propaganda racial.
07
MAY
Quem foi Apolônio, o 'Jesus grego' que foi cancelado pelo cristianismo
Gravura de Apolônio de Tiana feita Johann Theodor de Bry, provavelmente no início do século 17 Domínio público O enredo é bem conhecido do mundo religioso. Trata-se da história de um homem barbudo, que trajava túnica simples e que viveu há cerca de 2 mil anos. Era reconhecido como sábio, dotado de excelente oratória e teria realizado milagres: curado doentes, ressuscitado mortos, alimentado famintos. Acabou reunindo seguidores. Provocou a ira dos poderosos romanos e chegou a ser condenado por eles. Mas alcançou a vida eterna, levado de corpo e alma para os céus. Não, não se trata de Jesus de Nazaré. Esta narrativa, que cabe perfeitamente naquela que está na base da religiosidade cristã, é um resumo do que teria sido a vida de um outro personagem extraordinário, um sujeito que também teria vivido no primeiro século da Era Comum: Apolônio de Tiana. E não é por acaso que muitos o definem como o "Jesus grego" ou o "Jesus pagão". A mitologia erguida ao redor de sua biografia guarda semelhanças muito grandes com a narração presente nos evangelhos que contam a trajetória da figura central da religiosidade cristã. "Após sua morte, sua figura passou a ser venerada em algumas cidades do mundo grego oriental", comenta o filósofo Dennys Garcia Xavier, professor na Universidade Federal de Uberlândia. "Em certos locais houve até estátuas e honras cívicas. No entanto, isso não se transformou em igreja organizada ou corpo doutrinário sistemático. Menos ainda em um culto litúrgico estruturado dotado de escritura sagrada normativa." Pouco se sabe de fato sobre quem foi Apolônio, embora haja um consenso entre historiadores de que, assim como Jesus de Nazaré, foi uma figura que existiu de fato. O mais provável é que ele tenha nascido por volta do ano 15 em Tiana, antiga cidade da Capadócia em região da atual Turquia, e morrido por volta do ano 100 na antiga cidade grega de Éfeso, também na atual Turquia. "Certamente existiu Apolônio, assim como existiu Jesus. Não há dúvida quanto a isso. Mas em ambos os casos, suas biografias obedeciam a padrões e expectativas por parte do público e dos padrões da época", comenta o filósofo Gabriele Cornelli, professor na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro Sábios, Filósofos, Profetas ou Magos?, que trata, como diz o subtítulo, da "magia incômoda de Apolônio de Tiana e Jesus de Nazaré". De origem grega, Apolônio foi um filósofo da linha neopitagórica, praticante do ascetismo — ou seja, alguém que renunciava aos prazeres em busca de um desenvolvimento espiritual, com disciplina moral e busca pelo conhecimento — e teria viajado disseminando seus ensinamentos. Acredita-se que ele era de família abastada e, desde muito jovem, tenha estudado filosofia. "Também é possível que ele tenha viajado pelo Mediterrâneo e pelo Oriente, atuando como uma espécie de filósofo itinerante, algo comum em sua época", esclarece a historiadora Semíramis Corsi Silva, professora na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Conforme explica o historiador Daniel Brasil Justi, professor na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a carência de referências documentais contemporâneas a Apolônio é algo relativamente recorrente a figuras dessa época. Mas sua existência pode ser comprovada pela chamada múltipla atestação — ou seja, por relatos de autores diferentes e sem relação entre si que tratam do mesmo indivíduo. O que não significa que tudo o que se diga a respeito dele seja verdadeiro. Contaminação literária "O personagem de Apolônio de Tiana é um ótimo exemplo de como história e ficção podem se misturar", diz Silva. "Em termos gerais, a maioria dos pesquisadores considera que ele provavelmente existiu como um filósofo itinerante do século 1º, oriundo da Capadócia, então província do Império Romano. No entanto, a imagem que chegou até nós está marcada por elementos literários." Silva estudou o tema em seu doutorado realizado na Universidade Estadual Paulista. Essa contaminação literária a respeito da vida real de Apolônio foi causada principalmente pela obra Vida de Apolônio de Tiana, livro escrito por Flávio Filóstrato (170-250), um grego sofista que se dedicou a produzir essa biografia elogiosa e com contornos místicos a respeito de Apolônio no século 3º. Segundo Justi, há o entendimento de que registros breves de ditos e supostos milagres realizados por Apolônio tenham servido como pano de fundo para a biografia dele. Gravura de Apolônio feita por Gottlieb Friedrich Riedel em 1780 Domínio público Filóstrato narrou a trajetória de Apolônio por meio de inúmeras viagens. De acordo com o filósofo Cornelli, o que explica que os relatos são cheios de episódios fantásticos é que, na maneira como se biografavam personalidades naquela época, o enredo precisava mostrar que pessoas notáveis eram grandiosas do começo ao fim da vida. "Não tem a ideia da evolução do pouco para o muito. Tem de ser extraordinário do alfa ao ômega", contextualiza. "Sabemos muito pouco sobre a vida real de Apolônio. O que temos é um quebra-cabeças sobre o mundo onde ele esteve, considerando que ele era um filósofo e que teria transitado muito pelo Mediterrâneo e, talvez, até pela Mesopotâmia", comenta Cornelli. Para o pesquisador, é de se supor que ele tenha visitado cidades importantes daquela época, como Atenas, Roma e Alexandria. Como concordam os pesquisadores, a Vida de Apolônio de Tiana muito provavelmente foi um texto encomendado a Filóstrato pela imperatriz romana Júlia Domna (170-217). "Tinha intenções claras de exaltar o personagem ao qual a dinastia severiana [que governou de 193 a 235] parece ter admirado e até cultuado", pontua Silva. "A grande questão é que esse livro pode muito bem ser uma biografia romanceada, muito mais do que uma biografia propriamente dita", afirma o filósofo Aldo Dinucci, professor na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). No livro estão narrados feitos extraordinários realizados por Apolônio — curas, previsões e um rol de milagres. "Ele seria o homem sagrado mais famoso da antiguidade, só perdendo para Jesus", comenta Dinucci. E teria viajado muito. "Os relatos falam em visita aos brâmanes na Índia e aos filósofos que andavam nus na Etiópia", diz Dinucci. "E entre seus feitos estaria a ressurreição de uma garota." Apolônio seria um homem de oratória impressionante e que, no início de sua missão, havia feito um voto de silêncio de cinco anos. Acredita-se que a obra de Filóstrato tinha interesse em engrandecer o personagem tanto por seus gostos próprios como pela predileção da dinastia que estava no poder em Roma. A existência de Apolônio como personagem histórico apoia-se no fato de que ele também é mencionado em outras obras. "De forma mais sóbria e até crítica", salienta Silva. É o caso de autores como o historiador romano Dião Cássio (155-229). "Isso reforça a ideia de que sua vida não se trata de uma invenção completa", diz a historiadora. "Além disso, há a tradição de cartas atribuídas a Apolônio. Embora a autenticidade delas seja discutida, isso indica que já na Antiguidade circulava a imagem de Apolônio como mestre filosófico e conselheiro, para além da biografia escrita por Filóstrato", argumenta ela. Por conta desse cenário, o mais aceito hoje é que Apolônio seja um personagem real. Mas alguém que teve sua vida progressivamente reinterpretada e, como enfatiza Silva, "enriquecida pela tradição literária, adquirindo contornos que misturam história e ficção". Não muito diferente do que costuma acontecer com personagens religiosos. Contemporâneos mas desconhecidos Embora Apolônio e Jesus possivelmente tenham sido praticamente contemporâneos, não há evidências de que um tenha sabido da existência do outro. "Não existe qualquer evidência histórica confiável de contato direto entre eles, nem sequer indireto", diz Xavier. "Isso não deve surpreender o homem contemporâneo. O mundo romano do século 1º era vastíssimo, e figuras religiosas itinerantes surgiam aos borbotões em diversas regiões simultaneamente. Jesus atuou principalmente na Galileia e na Judeia. Apolônio circulou sobretudo pela Ásia Menor, Síria, Egito e Grécia, ao que parece." "Essa é uma questão interessante porque aproxima duas figuras que, embora contemporâneas, pertencem a tradições diferentes. Apolônio de Tiana e Jesus de Nazaré teriam vivido no início do século 1º e ambos foram posteriormente associados a feitos extraordinários", comenta Silva. "Porém, não há evidência histórica de que tenham tido conhecimento um do outro. As fontes que mencionam Apolônio, especialmente a obra de Filóstrato, são relativamente tardias e não fazem referência a Jesus ou ao movimento cristão. Da mesma forma, os textos do Novo Testamento não mencionam Apolônio." Cornelli diz ser possível que Filóstrato tenha ouvido falar sobre Jesus — mas acha improvável que ele tenha tido contato com os textos que narravam a vida do nazareno. "Na época, ele não era alguém tão importante", ressalta. A historiadora Silva lembra que os seguidores de ambos, estes sim, de alguma forma esbarraram na história um do outro. Ela nota que a partir do final do século 3º, com o cristianismo começando a se consolidar, há registros de autores estabelecendo comparações entre o nazareno e o tianeu. "Sosiano Hierócles, escritor e político romano ativo no final do século 3º e início do 4º, escreveu uma obra conhecida como Amante da Verdade, na qual teria apresentado Apolônio com um exemplo de sábio comparável, ou até superior, a Jesus", comenta a historiadora. O bispo cristão Eusébio de Cesareia (265-339), considerado o primeiro historiador do cristianismo, não gostou. Rebateu com um tratado intitulado Contra Hierócles, no qual defendia a singularidade de Jesus. Vídeos em alta no g1 Magia e charlatanismo Silva frisa ainda que há nos textos greco-romanos diversos textos que apresentam Apolônio de forma mais crítica. Era a oposição entre a teurgia e a goécia — um lado visto como ligado aos deuses, outro demoníaco. "Em certos relatos, ele não aparece como um sábio ascético que não comia ou vestia nada vindo de animais em busca de pureza e elevação", comenta. "Nessa outra tradição, ele é associado à figura do 'goēs', alguém ligado a práticas de encantamento, feitiçaria e manipulação de forças ocultas." Ela explica que esta era uma visão pejorativa. E Apolônio foi qualificado como ligado a magia goética em uma homilia do arcebispo de Constantinopla João Crisóstomo (347-407). Cirilo de Alexandria (375-444) era outro bispo que também o criticava. "Para esses autores, o tianeu era um charlatão", observa a historiadora. Para o historiador Justi, há uma diferença etimológica que separa a narrativa de Jesus da de Apolônio — e isto permeia a descrição do fantástico que eles supostamente faziam. Enquanto a tradição latina adotada pelo cristianismo derivou para a palavra milagre, a linha grega dos relatos de Apolônio empregava a ideia do taumaturgo. Ou seja: do que fazia encantamentos, maravilhas. Gradualmente, o cristianismo passou a demonizar um lado, como sendo o da magia, e valorizar o outro, como sendo o do divino. Com a consolidação da religião baseada nos ensinamentos de Jesus, veio o apagamento de Apolônio. "Por trás das duas figuras, há um campo semântico diferente", comenta Justi. "Mas ambos estão no âmbito da magia, em crenças que dominavam o Mediterrâneo da época." A diferença, explica o historiador, é que gradualmente se consolida a ideia de que um era um divino, enquanto o outro o feiticeiro. Assim como Jesus, Apolônio também teve seguidores póstumos. A historiadora Silva, contudo, lembra que o modelo não foi semelhante ao do cristianismo — não há indícios de que tenha nascido uma religião organizada, com comunidades e doutrina, a partir do legado do sábio grego. "Não foi uma religião fundada, mas sim um conjunto de pessoas que seguiam essas ideias", aponta Justi. "Mas Filóstrato conta que chegou a visitar um templo dedicado ao culto de Apolônio em Tiana", acrescenta Dinucci. "As fontes […] indicam que ele foi seguido como um mestre filosófico ligado ao neopitagorismo, e admirado por seu estilo de vida ascético e pelos seus ensinamentos", comenta Silva. "Após sua morte, sua reputação não só continuou como foi ampliada. Ele passou a ser visto como um 'homem divino'." Para ela, o que houve foi uma "recepção intelectual" de sua figura. Apolônio de Tiana ensina aos seus discípulos Getty Images Para os especialistas, as histórias parecidas entre Jesus e Apolônio têm muito mais a ver com o caldo cultural onde esses personagens foram ressignificados do que com uma coincidência aleatória. "As semelhanças […] podem ser explicadas principalmente pelo contexto cultural do mundo antigo", pontua Silva. "Tanto nas tradições grego-romanas quanto nas orientais, em contatos e confluências, era comum atribuir feitos extraordinários a figuras consideradas 'homens divinos', incluindo curas e narrativas de retorno da morte." "Isso não significa necessariamente que as histórias dependam uma da outra, mas que compartilham um mesmo repertório religioso e literário da época", ressalta ela, acrescentando que os embates entre cristãos e não-cristãos, reforçando as comparações entre os dois, serviram para ampliar ainda mais a ideia de que havia semelhanças. Daí não só os feitos ditos milagrosos de Apolônio, como também a crença de que ele não teria morrido — mas sido levado aos céus e, depois da morte, como um ressuscitado, reaparecido a algumas pessoas. "Essas histórias eram comuns na época sobre personagens importantes", pontua Cornelli. "Eram tão extraordinários que precisavam ser percebidos com algum tipo de poder divino ou alguma ligação especial com o divino. Isso independia da religião, se grega, romana ou judaica." Ele diz que tais narrativas combinavam a junção do conhecimento, da sabedoria, do ensinamento, das falas importantes e de algum tipo de poder divino — que aparecia do nascimento à morte. Apolônio também, acreditava-se, tinha sido fruto de uma concepção virginal — lembra Cornelli. "E no final da vida morre, mas reaparece. Ressuscita", analisa ele. "A mesma maneira de contar as histórias: um começo extraordinário até um fim extraordinário." Apagamento histórico Justi conta que o imperador Constantino (272-337), aquele que se converteu ao cristianismo, acabou sepultando a memória de Apolônio. "Há evidências de que, quando ele mandou destruir tudo [o que era ligado ao paganismo], foram destruídos materiais ligados a Apolônio", comenta. Embora seja inevitável comparar o tianeu e o nazareno com os olhares contemporâneos, o anacronismo torna esse paralelismo incorreto. "Atribuir a Apolônio a ideia de um 'Jesus pagão' é desconhecer por completo a dinâmica da Bacia Mediterrânea, em que havia um sem-número de personalidades parecidas com Jesus", lembra Justi. "Talvez o ponto mais relevante seja compreender quem Apolônio realmente foi dentro da tradição filosófica antiga", acredita Xavier. "Ele não foi um profeta apocalíptico como Jesus, nem fundador de religião revelada. Foi antes um representante tardio do ideal grego segundo o qual a filosofia é uma forma de vida." Para o professor, Apolônio é "testemunho de que o século 1º foi um período sobremaneira fértil em figuras carismáticas que procuravam reformar a vida moral e religiosa do mundo antigo". Apolônio de Tiana, o 'Jesus pagão' a quem se atribuíam milagres e que era considerado divino e imortal Páscoa: as razões políticas por trás da condenação de Jesus à cruz Quem foi Maria Madalena e qual seu papel na Sexta-feira da Paixão