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Como a bicicleta ajudou mulheres indianas a ler, escrever e ter uma vida melhor
A bicicleta trouxe energia e entusiasmo à campanha pela alfabetização na Índia, nos anos 1990. P Sainath/PARI via BBC "A Índia se tornou um país independente em 1947, mas eu só ganhei minha independência em 1992", conta Jayachithra, de 55 anos. Ela trabalha como diretora de uma escola estatal no sul da Índia. Sua vida mudou há 33 anos, quando uma autoridade distrital fez uma alteração pequena, mas radical, da Missão Nacional de Alfabetização que se espalhava pelo país. Ela incentivou as mulheres a aprender a andar de bicicleta. Jayachithra foi uma das 100 mil mulheres de famílias rurais e conservadoras que ganharam mobilidade, independência e liberdade pedalando pelas ruas. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Muitas daquelas mulheres raramente se aventuravam a sair de casa naquela época. E algumas das que aprenderam a andar de bicicleta no início dos anos 1990 viriam a trabalhar em escritórios, recebendo altos salários. A medida acabou mudando o futuro delas e das suas filhas e netas. Andar de bicicleta ajudou as mulheres a ganhar tempo nas suas tarefas diárias, como ir buscar água e deixar as crianças na escola. Arivoli Iyakkam via BBC Caminho pioneiro Em 1988, a Índia criou sua Missão Nacional pela Alfabetização, para promover a leitura, a matemática e a consciência sobre os direitos fundamentais. O distrito de Pudukkottai fica no extremo sul da Índia, no Estado de Tamil Nadu. Ali, este programa ficou conhecido como o "Movimento da Iluminação". Menos da metade das mulheres do distrito sabiam ler e escrever, segundo o censo de 1991. Eram cerca de 270 mil mulheres não alfabetizadas em Pudukkottai. "Durante as discussões sobre a missão da alfabetização, ficou evidente que as mulheres seriam as principais beneficiárias", relembra Kannammal, coordenador do Movimento da Iluminação, que estava presente na oportunidade. A campanha calculou que seriam necessários 30 mil voluntários para lecionar para aquelas mulheres. Era um desafio logístico, que levaria à criação do programa das bicicletas. A coletora do distrito, Sheela Rani Chunkath, recebe algumas das novas ciclistas do programa. Arivoli Iyakkam via BBC O problema era que as famílias das mulheres não alfabetizadas esperavam receber professoras mulheres, mas muito poucas tinham seu próprio meio de transporte. "Naquela época, as mulheres não tinham acesso a bicicletas ou motocicletas", conta ao serviço em língua tâmil da BBC a então servidora civil sênior do distrito, Sheela Rani Chunkath. "Elas não conseguiam viajar de forma independente. Achei importante criar esta oportunidade", conta Chunkath. "As bicicletas deram às mulheres uma sensação de liberdade e autoconfiança." "Algumas autoridades eram contra o recrutamento de mulheres voluntárias", relembra Kannammal. "Eles diziam que as mulheres não poderiam ir às aldeias remotas, mas a coletora do distrito [Chunkath] rejeitou seus argumentos." "Quando as mulheres começaram a viajar de forma independente, percebi que elas poderiam fazer tudo", prossegue Kannammal. "Aquilo abriu o caminho para que elas derrubassem todas as outras barreiras construídas pelos homens." Histórias de sucesso Jayachithra credita grande parte do seu sucesso ao programa de bicicletas. Via BBC O projeto ajudou inúmeras mulheres de classes sociais muito diferentes, tanto professoras quanto estudantes. "Naquela época, eu vivia como uma escrava", relembra Jayachithra. Ela possui nível de educação mediano. "Meu pai não me permitia nem mesmo abrir as janelas e olhar para fora." Naquela época, as mulheres solteiras eram frequentemente mantidas fora da visão dos homens. "Depois de completar 10 anos de idade, minha família me pediu para aprender a costurar ou datilografar", relembra ela. Estes empregos costumavam ser considerados seguros e apropriados para as mulheres. Jayachithra tinha nota 99 de matemática e acabou se sentindo reprimida por estas sugestões. Sua mãe, então, penhorou seu colar de casamento para pagar o ensino para que Jayachithra se tornasse professora. Como parte da missão de alfabetização, ela foi selecionada para lecionar para mulheres muçulmanas, em uma aldeia vizinha. Jayachithra percebeu que não conseguiria chegar até lá a pé e aproveitou a oportunidade para aprender a andar de bicicleta. "Comecei a usar longas saias e meios-sáris", relembra ela. "Não havia bicicletas femininas na época e, por isso, aprendi em uma masculina." Isso trazia novos problemas. A bicicleta feminina tem uma barra mais baixa conectando o guidão ao assento, o que facilita para as mulheres montar e pedalar usando sári. Jayachithra caiu algumas vezes, mas a recompensa a entusiasmou. "Minha vida mudou drasticamente. Eu me sentia como uma borboleta. Eu aguardava ansiosamente a chegada da noite, quando saía pedalando para as aulas." "No início, meu pai não aprovava, até que ele mudou de opinião e comprou uma bicicleta para mim", relembra ela. "Foi o melhor dia da minha vida." Vasantha valoriza a educação e, agora, ajuda sua neta Naveena a buscar carreira na medicina. Via BBC Vasantha, agora com quase 60 anos, não sabia ler e escrever. Ela vem de uma família pobre da casta dalit, que sofreu séculos de exclusão social. Ela se casou jovem e seu marido também era analfabeto. Representantes do Movimento da Iluminação entraram em contato com Vasantha. Na época, ela trabalhava em uma pedreira, quebrando pedras com ferramentas manuais. Naquela época, as bicicletas já eram parte integrante do projeto e as participantes também podiam aprender a pedalar. "Pessoas do movimento de alfabetização nos disseram que poderíamos ganhar bicicletas se aprendêssemos a andar nelas", conta Vasantha à BBC. Ela era tímida e, inicialmente, se sentiu constrangida. Mas não conseguiu resistir à onda de entusiasmo que invadiu sua aldeia. "Naquela época, muito poucas residências da nossa aldeia tinham bicicleta, mas eu consegui pegar uma emprestada e aprender a andar", ela conta. Posteriormente, ela conseguiu comprar sua própria bicicleta, que usava regularmente para pegar água para levar para casa. Depois de aprender a ler, escrever e contar, Vasantha se associou a três outras estudantes. Elas alugaram uma pedreira e começaram seu próprio negócio. Vasantha afirma que o programa das bicicletas alimentou sua confiança e fez com que ela ganhasse liberdade e respeito. Agora, ela ajuda sua neta, que deseja ser médica. Legado duradouro No início dos anos 1990, era raro ver mulheres da zona rural se movimentarem de forma independente em Pudukkottai, no extremo sul da Índia. Arivoli Iyakkam via BBC Hoje em dia, podemos encontrar dezenas de mulheres como Vasantha em quase todas as aldeias de Pudukkottai. Algumas abriram pequenos negócios e muitas trocaram seu trabalho sazonal na agricultura por empregos de nível júnior em empresas. A alfabetização ajudou as mulheres a compreender que elas recebiam muito menos. Em muitos casos, elas reivindicaram aumentos salariais com sucesso. A bicicleta libertou as mulheres, que não precisavam mais depender dos seus parentes homens para sair de casa, em uma época em que a maioria das aldeias não tinha estradas adequadas e o transporte público era pouco desenvolvido. No dia 11 de agosto de 1992, o distrito de Pudukkottai foi declarado livre do analfabetismo. Hoje em dia, é comum encontrar mulheres andando de bicicleta em Pudukkottai. Mas Jayachithra não é uma delas. Agora, ela anda de lambreta e sua filha comprou um carro. Como a bicicleta ajudou mulheres indianas a ler, escrever e ter uma vida melhor. Via BBC "A bicicleta trouxe confiança para pessoas como eu", conta Jayachithra. "Ela me fez perceber que não preciso depender de ninguém."
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Não é só Medicina: cursos mais caros de Administração têm mensalidades de até R$ 13.500; veja números
Propagandas de cursos superiores de Administração com mensalidades mais altas do que a média nacional Reprodução/Link School of Business/PIB The New College/Saint Paul Escola de Negócios Em cursos “premium” de administração, faculdades particulares costumam reforçar (com muitos termos em inglês) que os professores são founders de empresas e ajudam a formar global leaders. E que os estudantes seguem o learn by doing com imersão em hubs de inovação para fazerem networking e serem, no futuro, os changemakers da nova geração. Segundo o levantamento do g1, 8 instituições de ensino no Brasil cobram de R$ 7 mil a R$ 13.500 de mensalidade para cursos de quatro anos de duração. Sem contar com os reajustes que ocorrem anualmente, os futuros administradores desembolsarão mais de até R$ 648 mil ao longo do período. Ao menos metade dessas faculdades fica no que algumas delas chamam de “Vale do Silício paulistano”, na região da Avenida Faria Lima e do bairro Vila Olímpia, em São Paulo. Veja a lista abaixo, com os valores atuais: Link School of Business (SP): R$ 13.500 PIB The New College (SP): R$ 10.000 Saint Paul Escola de Negócios (SP): R$ 8.900 Insper (SP): R$ 8.300 FGV-EAESP (SP): R$ 7.850 Inteli (SP): R$ 7.780 Ibmec (campus de SP): R$ 7.700 ESPM (SP e RJ): R$ 7.262 Segundo o levantamento do Instituto Semesp (2024), a média nacional cobrada para cursos presenciais desta área no país é de R$ 930. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Como as instituições acima tentam convencer os alunos a pagar valores tão mais altos, comparáveis aos de Medicina? Veja abaixo. 1- Foco em liderança e formação de protagonistas Todas as instituições enfatizam que estimulam o desenvolvimento de líderes, CEOs e empreendedores capazes de impactar a sociedade e a economia. A Link, por exemplo, declara que seu programa é construído para “formar empreendedores”. Já a PIB Education posiciona-se como uma “escola de CEOs”. 2- Internacionalização A experiência internacional é um pilar central de propaganda nesses cursos, indo além de intercâmbios comuns e incluindo imersões em “hubs globais de inovação”. Alguns prometem duplas titulações após a formatura, como a FGV e o Insper. A Link e a PIB realizam imersões em locais como Stanford, Wharton e ecossistemas em Austin (Texas) ou Madrid. Já a Saint Paul mantém conexões com instituições como Harvard Business School Online e ESMT Berlin. 3- Metodologia prática (hands-on) O aprendizado nessas escolas é voltado para a resolução de problemas reais de empresas parceiras — há um foco claro no discurso de combate ao modelo puramente teórico. No Insper, existe o programa REP (Resolução Eficaz de Problemas) com empresas reais, e no Inteli, o ensino é baseado em projetos para organizações e startups. 4- Corpo docente atuante no mercado As escolas afirmam que investem em professores que não são apenas acadêmicos, mas também líderes de mercado, fundadores e executivos experientes. 5- Processos seletivos alternativos Algumas dessas instituições têm processos de seleção que fogem do padrão de vestibular e tentam focar nas habilidades e na personalidade de cada candidato. Na Link, os inscritos encaram o “Link Journey”, com análise de portfólio e apresentação de vídeos motivacionais. O Intelige e a FGV preferem priorizar desafios práticos e entrevistas para avaliar o perfil dos interessados. Vídeos Aluno tira zero na redação da Fuvest ao usar 'palavras difíceis' Gêmeos de 18 anos contam bastidores de aprovação em universidades de elite dos EUA
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Marmitório, mi-mi-mi, parditude: novas palavras podem entrar no vocabulário oficial da língua portuguesa; veja lista
Parditude, marmitório e mi-mi-mi podem entrar no vocabulário oficial da língua portuguesa Editora Planeta/Freepik/Reprodução/Redes sociais Naquela cordelteca improvisada no fundo do marmitório, o enredista tentava organizar um debate sobre parditude em tempos de policrise, evitando o mi-mi-mi e apostando em ideias pesquisáveis. As palavras destacadas em negrito na frase acima estão passando por um "processo seletivo" para ganhar uma vaga fixa no Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa (Volp). Dependendo da decisão dos lexicógrafos da Academia Brasileira de Letras (ABL), elas podem ser incorporadas oficialmente ao idioma. Em 2025, por exemplo, "pejotização" (prática de contratar um trabalhador como pessoa jurídica) e "terrir" (gênero de filme ou obra que mistura terror e humor) estavam na disputa e foram aprovadas com sucesso. LEIA TAMBÉM: Quem é pardo para os comitês que decidem quais alunos podem entrar nas universidades por cotas raciais? 🤔O que significam? cordelteca: coleção, acervo ou espaço dedicado à guarda e divulgação de literatura de cordel. marmitório: local de refeição simples, geralmente associado a trabalhadores que levam marmita, ou espaço de venda desses pratos prontos. enredista: pessoa que cria enredos, especialmente para narrativas, peças, novelas ou desfiles (como no Carnaval). parditude: condição, identidade ou conjunto de características associadas a pessoas pardas; termo ligado a discussões raciais no Brasil. policrise: situação em que múltiplas crises (econômica, social, ambiental etc.) ocorrem simultaneamente e se inter-relacionam. mi-mi-mi: reclamação considerada excessiva ou repetitiva; choramingo. pesquisável: que pode ser pesquisado ou investigado. 📖O que é Volp? É o documento oficial que estabelece qual é a grafia correta de cada palavra na norma padrão do português brasileiro. Ele tem força de lei. LEIA TAMBÉM: Aluno tira zero na redação da Fuvest ao usar 'palavras difíceis' e processa reitor da USP Ao contrário de dicionários como "Houaiss" e "Aurélio", que são mais descritivos e que registram inclusive gírias para mostrar o "uso cotidiano da língua", o Volp privilegia a forma culta. Nos resultados de busca, ele não mostra o significado do termo, e sim a forma certa de escrita, a flexão da palavra (o plural de couve-flor, por exemplo, ou um feminino irregular) e a classe gramatical dela (substantivo masculino, verbo etc.). “O Volp não introduz uma palavra no léxico nem é um censor que autoriza ou não o ingresso de um termo na língua. Quem cria é o falante. O que o VOLP faz é registrar”, explicou Ricardo Cavalieri, da ABL, em entrevista ao g1 em 2025. ✏️Quais os critérios para que uma palavra entre no nosso vocabulário oficial? Um termo que é só “modinha do momento” não pode entrar no Volp — é preciso haver estabilidade e continuidade de uso. Podemos pensar, por exemplo, em “Inshalá”, que dominou as conversas em 2002, durante a transmissão de “O Clone”, na TV Globo, mas que caiu em desuso pouco tempo depois. Fez sentido não entrar no Volp. Os principais critérios levados em conta pela comissão de lexicógrafos para incorporar um novo termo ao nosso vocabulário são os seguintes: Ocorrência em textos escritos: a palavra precisa constar em materiais como reportagens, livros, artigos acadêmicos ou textos doutrinários. "Não basta circular apenas na oralidade, em redes ou em conversas digitais”, afirma Cavalieri. Presença em pelo menos três gêneros textuais distintos: é necessário que o vocábulo apareça em registros diversos — como reportagens jornalísticas, artigos científicos, textos técnicos e obras literárias. Isso mostra que ele não está restrito a um grupo específico de pessoas. Uso estável e uniforme: o termo deve apresentar “homogeneidade de sentido em diferentes contextos”, sem variações de significado. Um neologismo que seja entendido de forma diferente por cada um pode não estar ainda consolidado na língua. Adaptação ortográfica, no caso de estrangeirismos: termos como “deletar”, aportuguesados, podem ser incorporados. Já aqueles que mantêm a grafia original, como “spin-off” e “bullying”, costumam ser registrados em um vocabulário específico de palavras estrangeiras, distinto do Volp. ⏳E quem está na ‘sala de espera’? Para acompanhar essa dinâmica, a ABL mantém o Observatório Lexical, que funciona como uma "sala de espera”. Ali, determinados termos sugeridos por leitores ou por profissionais do Volp ficam no aguardo de uma decisão: são apenas um modismo ou estão sendo usados de forma estável? Chegar à resposta é um processo complexo que envolve pesquisas textuais intensas tanto na internet quanto em obras digitalizadas nas bibliotecas. Também é comum receber contribuições de lexicógrafos de fora da ABL. Não há um prazo estipulado para que a decisão seja tomada. Como explicou Cavalieri ao g1, “a própria palavra faz seu tempo. Cada termo tem sua história até se firmar”. Covid-19, por exemplo, entrou no vocabulário oficial rapidamente, pelo uso massivo durante a pandemia. Outras candidatas Veja a lista com mais palavras que estão sendo analisadas pelos lexicógrafos no momento e descubra o significado de cada uma delas (além das já mencionadas no início da reportagem): ordinarista: relativo ao cotidiano ou ao que é comum; também pode designar alguém que se ocupa de fatos ordinários. preferencialista: que adota ou defende critérios de preferência; ligado a políticas ou práticas de prioridade. reclínio: ato ou efeito de reclinar; posição inclinada ou de repouso. refilável: que pode ser reabastecido (com refil), especialmente embalagens reutilizáveis. Vídeos Aluno tira zero na redação da Fuvest ao usar 'palavras difíceis'